Domingo, setembro 25

A invasão da Ucrânia e o apocalipse nuclear

e nos continuarmos a recusar ver a realidade nesta altura que ela salta perante os nossos olhos, não poderemos surpreender-nos quando ela nos assaltar de novo, provavelmente pela calada.

Na minha última passagem pela Ucrânia, lembro-me de ter ficado surpreendido com a forma como se promoviam excursões turísticas a Chernobyl e Pripyat (a principal cidade situada no perímetro de exclusão e abandonada na sequência da hecatombe de 1986), nas imediações do museu (Museu Nacional Ucraniano de Chernobyl, museu que, se escapou à guerra, recomendo uma visita) e que em Kyiv é dedicado à homenagem aos inúmeros heróis que deram a sua vida para evitar que a catástrofe fosse incomensuravelmente maior, eventualmente de recuperação quase impossível, como poderia ter sido.

Não agarrei a ideia por falta de disponibilidade, mas, apesar de os prospectos turísticos serem relativamente claros nos cuidados a ter, percebi que estávamos já numa lógica de tentativa de inversão da realidade, valorizando a recuperação da fauna e flora selvagens na sequência do abandono pelo homem da zona de exclusão, sem contudo falar das consequências catastróficas que continuam a fazer-se sentir e que podem ser consultadas, de forma abreviada.

Vem isto a propósito das centenas de soldados russos tiveram de ser evacuados de Chernobyl para hospitais em Gomel, na Bielorrússia, por sintomas de envenenamento nuclear, depois de se terem posto a cavar trincheiras para resistir às forças ucranianas.

A notícia parece inverosímil, entre outras coisas, porque implica que as forças de ocupação ignoraram, de forma flagrante, informações acessíveis, mesmo em prospectos turísticos, sobre os cuidados a ter ao visitar a zona nuclear de exclusão mas, depois de divulgada originalmente pelas autoridades ucranianas, tem sido confirmada pela generalidade da imprensa nas últimas horas.

É claro que a guerra de informação existe aqui como em todas as guerras, e que eu só teria certezas se lá tivesse estado, mas tudo o que conheço desta invasão leva-me a crer que a informação é plausível e que vai eventualmente ser confirmada nos próximos meses.

Creio que vale a pena passar em revista o que se passou e o que se disse do que se passou para nos apercebermos do que temos pela frente.

Nesta invasão da Ucrânia, Vladimir Putin copiou em Mariupol o que tinha feito antes em Grozni e Alepo: arrasar cidades à bomba matando indiscriminadamente civis e pondo em fuga os sobreviventes. Assinale-se que as forças chechenas do clã islamista Kadyrov foram usadas para as carnificinas em Grozni e Mariupol, enquanto em Alepo, a Rússia utilizou os grupos afiliados nos Guardas Revolucionários Islâmicos controlados por Teerão.

Contudo, esta invasão juntou a esse tradicional modus operandi a intimação nuclear. O Presidente russo não só ameaçou de viva-voz usar armas nucleares, como utilizou as centrais nucleares ucranianas para mostrar o que pode vir a fazer no resto da Europa.

As forças russas começaram a invasão ocupando a antiga central nuclear de Chernobyl, tendo atingido a tiro um depósito de resíduos nucleares e, de acordo com as autoridades ucranianas, instalando depois um depósito de munições junto aos reatores nucleares. Ocuparam dias mais tarde a maior central nuclear da Europa, em Zaporizhia, e dispararam tiros de tanque sobre ela.

Para tudo isto, as nossas elites ocidentais têm encontrado respostas para enquadrar na sua racionalidade o que aconteceu.

A ameaça de guerra nuclear de Putin – clara no original e repetida ainda de forma mais clara pela diplomacia russa – levou o Presidente dos EUA a uma lógica defensiva, não ripostando e assegurando mesmo que ‘Os americanos não se devem preocupar!’

Já antes, peritos de defesa norte-americanos tinham tentado desculpabilizar Putin, afirmando que Chernobyl foi conquistado apenas por que ‘Ficava no caminho para Kyiv’ e ‘para evitar o descaminho de resíduos nucleares’! (da página Wikipédia sobre o assunto).

A referida página da Wikipédia tem igualmente a posição da Ucrânia (de que se tratou de acção deliberada russa) e da Rússia, que culpa os ucranianos e os seus mentores nazis e imperialistas da OTAN por este como de todos os problemas, mas é óbvio que é a opinião dos peritos norte-americanos, tidos como exprimindo a opinião dos aliados da Ucrânia, na verdade fazendo o discurso de Putin, que tem aqui mais peso.

Nem todos os militares reformados ou ex-responsáveis do Pentágono sofrem de putinofilia (a situação, desse ponto de vista é mais preocupante em Portugal, por exemplo, mas Portugal não é o principal pilar da OTAN) mas basta atentar um pouco nos factos para entender como estas opiniões putinófilas não têm sentido.

Se o problema é apenas de Chernobyl ficar no caminho de Kyiv, então por que razão as tropas russas abandonaram Chernobyl antes de abandonar as posições à volta de Kyiv, depois da pesada derrota que sofreram? Seria absurdo acaso não tivessem razões fortes para inverter a ordem de retirada!

E se as forças de Putin são responsáveis e as ucranianas irresponsáveis em matéria de radioactividade, então por que razão as forças ucranianas não resistiram militarmente em Chernobyl ou em Zaporizhia (a maior central nuclear europeia) enquanto as russas não se coibiram de usar a força?

Mas não são só os comentadores de defesa que procuram tapar o Sol com uma peneira, de acordo com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) nenhum dos ataques afectou equipamento essencial das centrais nucleares, sendo o tom geral dos comunicados da agência o de desvanecer preocupações.

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